EDUCAÇÃO PARA UMA CONSCIÊNCIA RESPONSÁVEL EM HANS JONAS

Jose Luis Sepúlveda¹; Bartolomeu Pereira Lucena²
1 - Professor do departamento de filosofia e ciências sociais – UEPB – CEDUC II – campus I. E-mail: jsepulvedaferriz@yahoo.com.br
2 - Aluno do curso de licenciatura em filosofia – UEPB – CEDUC II – campus I. E-mail: bartolomeupe@gmail.com.
Resumo

O filosofo alemão Hans Jonas (1903-1993) acompanhou de perto o terror da segunda grande Guerra Mundial e da Guerra Fria, onde a humanidade se viu diante da séria possibilidade de um confronto nuclear. O homem a partir de então teria conseguido criar ferramentas capazes de ameaçar toda a biosfera. O mundo não é mais o mesmo, a técnica ganhou dimensões incalculáveis modificando a essência do agir. A natureza que antes sofria intervenções que eram irrelevantes diante de sua grandeza, agora é vulnerável a ação humana. Assim os cânones da ética tradicional não podiam mais encontrar aplicabilidade na ação do homem contemporâneo. O problema para Jonas está no fato de que a força de prever o impacto da produtividade ainda é muito insignificante diante da capacidade do homem moderno de produzir. A ciência produz de maneira irrefletida e as conseqüências dessa produção vão se acumulando com o tempo, refletindo não só na vida presente mais nas gerações futuras. A ética de Hans Jonas também ganha essa nova dimensão de temporalidade. Essa nova ética proposta por ele tem como princípio a responsabilidade, a natureza estando subjugada a nossa ação passa a ser um bem confiado a nós. E essa responsabilidade é função do poder e do saber. Seria necessário reconhecer a ignorância e garantir a vida de gerações futuras que dependem de nós para isso.
Palavras-chave: ética;educação;meio ambiente.
Introdução
Hans Jonas propõe uma ética voltada não só para as relações humana mais também direcionada para toda a biosfera. O homem sendo agente modificador da natureza também se torna responsável por ela.
Diante dos grandes impactos (ambientais, técnicos, sociais, políticos) provocados na sociedade pela tecnologia ( “Saber é poder” F. Bacon), o pensamento deste filósofo parece representar uma alternativa, uma saída dentro da modificação do próprio agir humano. É necessário então uma corrida contra o tempo, reparar os danos que já foram causados e impedir que os mesmos erros cometidos no passado se repitam. A ética não pode mais estar limitada apenas as relações de homem para homem (individualismo), o mundo contemporâneo possui outra dinâmica que não se assemelha em nada a dos antigos onde a preocupação com a natureza não era um problema. E essa característica antropocêntrica da ética clássica não permite para Jonas olhar a Biosfera como uma tarefa de nossa responsabilidade.
Esse trabalho tem como propósito trazer a discussão o pensamento de Hans Jonas no que se refere a responsabilidade do homem diante da hoje vulnerável natureza, vítima de sua ação. Entendendo que a aplicação da ética de Jonas está intimamente ligada a questão do saber e da consciência, outro aspecto que vai ser abordado será a educação. A educação aqui ganha um papel central na luta contra esse processo, visto que a consciência só pode ser desenvolvida através do combate a ignorância, provocada esta pela falta de valores ou paradigmas éticos e por uma educação deficiente que não consegue desenvolver uma personalidade consciente no homem e a mulher contemporâneos.
Metodologia
Utilizei o texto “O principio responsabilidade” de Hans Jonas (1903-1993) para abordar pontos acerca da possível aplicação da ética joniana na atualidade. A educação será discutida nesse trabalho como um princípio indispensável dentro do tema tratado, pelo significado que ela ocupa no circuito saber-responsabilidade do qual versa Jonas. O objetivo dessa pesquisa está em poder trazer para o debate acadêmico um tema tão importante no mundo de hoje, onde o medo à desinformação e a falta de perspectivas para as soluções em torno dos problemas ambientais prevalecem.
Educação para uma consciência responsável em Hans Jonas
Jonas em sua obra “O princípio responsabilidade” está sempre mostrando a diferença entre a técnica moderna e a dos tempos antigos. Seu pensamento adverte sobre o salto que a técnica dá principalmente no século XX, a produção em massa, o consumo desenfreado, as experiências nucleares, destruição do meio ambiente, carreira espacial, genética etc.
A antiguidade é marcada por certa ausência de dinâmica, a produção pode ser considerada como de subsistência, irrelevante no que se refere a sua capacidade de provocar grandes impactos na natureza. Já na modernidade a dinâmica domina inteiramente o “Ser” pelo “Ter”, as coisas carecem sempre de renovação, e a compulsiva inventividade é a garantia da preservação do sistema moderno de produção.
Jonas através dessa análise chega a conclusão de que a ética clássica perde sua aplicabilidade graças a essa alteração na essência do agir humano, ela não se encaixa mais as necessidades de nosso tempo. Tem que ser discutidos novos modelos éticos. A tecnologia passa a assumir um significado ético, por ocupar uma posição central no mundo de hoje. Mas é justamente por conta da técnica moderna que a natureza se encontra hoje ameaçada. Outrora a intervenção humana na sua ordem era irrelevante perante a sua grandeza. Agora ela se tornou vulnerável, um ser que depende de nossa consciência para continuar existindo. Aqui a obrigação não se limita aos interesses propriamente humanos, a natureza que está subjugada à nossa força agora se torna um bem a nós confiado.
Assim para Hans Jonas, a natureza possui algo como um direito moral, devendo o homem estender o reconhecimento de seus fins para além da esfera humana, incluindo a natureza (Biosfera) como parte constituinte do bem humano.
A sua ética também ganha uma nova dimensão de temporalidade, a ação causal do homem vai se somando em efeitos que se acumulam com o tempo.
...seus efeitos vão se somando, de modo que a situação para um agir e um existir posteriores não será mais a mesma da situação vivida pelo primeiro autor, mais sim crescentemente distinta e cada vez mais um resultado daquilo que já foi feito. (Jonas, 2006)
Por exemplo, hoje pagamos um preço por ações irrefletidas do meio cientifico cometidas no passado e conseqüentemente os homens no futuro pagaram um preço ainda maior por nossas ações do presente. Então outro personagem que entra em cena é esse homem que por enquanto não é, mais que depende de nós para ser. A filosofia de Jonas faz esse esforço metafísico para pensar o futuro incluindo-o dentro dos planos de sua ética. Que direito nós temos de anular o futuro das próximas gerações? Que ética deve existir para garantir uma existência humana para as gerações futuras?
Não podemos nós decidir com os olhos voltados unicamente para o presente, o cuidado com o futuro de todas as espécies inclusive a nossa não pode vir depois de saciadas as conveniências individuais, é preciso que venha antes. O que não existe pelo fato de sua materialidade estar ausente não possui um direito intrínseco de ser? Jonas dirá que o homem se quiser pode por fim a sua própria existência, mais não tem o direito de colocar em jogo o futuro da vida na terra para benefícios no presente. Devemos garantir que todas as nossas decisões estejam em conformidade com a realização de uma vida posterior.
Os danos provocados precisam ser reparados mesmo que as ações não tenham sido mal intencionadas. Sobre o pressuposto de que eu fui à causa ativa dessa ação, passo a ser o responsável por seus efeitos. Para Jonas não há relação de responsabilidade entre dois indivíduos completamente iguais. Somos responsáveis por aqueles que dependem de nos, estando sob influencia do nosso poder para existir.
O “porquê” encontra-se fora de min, mais na esfera de influência do meu poder, o dele necessitando ou por ele ameaçado. Ao meu poder ele contrapõe o seu direito de existir como é ou como poderia ser, e com a vontade moral ele submete ao meu poder. O objeto se torna meu, pois o poder é meu e tem nexo causal com esse objeto. (Idem)
Se temos as condições para interferir nesse processo e não o fazemos é porque somos irresponsáveis. O homem deve agir de modo que sua ação hoje possa garantir a vida dos sujeitos num futuro possível. Todo o nosso conforto no presente tem uma conseqüência que agora é problema nosso, o futuro também esta subjugado ao nosso poder e depende de nós para acontecer.
Os efeitos devastadores e nocivos da tecnologia são uma evidência, agora para que haja uma postura de valor que possibilite a permanência da vida no planeta, é necessária que se dissemine entre os homens uma consciência temerária (o que Jonas definirá como “heurística do temor”) denunciando o nosso excesso de poder. Se não for posto um freio nessa corrida de destruição que se soma com os anos, um futuro catastrófico como efeito dessas atitudes, será inevitável.
A educação aqui é definitiva para o desenvolvimento de tal noção. Esclarecer os indivíduos sobre a potencialidade devastadora que carregam. Usar o medo como ferramenta conscietisadora fundada numa ética da responsabilidade. A isso Jonas deu o nome de heurística do temor que seria uma espécie de consciência do medo. Ela seria uma maneira de acordarmos para os riscos da tecnociência e a sua eficácia só pode ser alcançada por meio da educação, através da orientação da humanidade sobre os danos causados pelas intervenções desequilibradas.
Conclusão
O saber para Jonas è fundamental dentro do principio da responsabilidade, só se pode agir responsavelmente quando se tem consciência dos efeitos da ação. Assim a educação teria condições de suportar essa proposta, sendo um campo para construção de sua ética.
Vejo a importância de se falar de Hans Jonas principalmente no panorama contemporâneo onde nunca estiveram tão em moda tais questões. Mas ainda há uma grande barreira a ser rompida, a de métodos para se alcançar uma verdadeira eficácia na popularização de tais saberes. O conhecimento acerca dos grandes impactos ambientais, as soluções para que eles sejam evitados, a nossa responsabilidade perante a natureza, todas essas informações precisam chegar as diversas camadas da sociedade para só assim os homens poderem garantir a preservação da biosfera. Lutar democraticamente e conscientemente por uma educação de qualidade, onde sejam formadas pessoas com uma consciência voltada para o “Outro”(Biosfera).
Atualmente a educação não fornece as bases para o alargamento de tal consciência. Da mesma forma que os modelos éticos devem de ser revisado, o modelo educacional deve ser também renovado Portanto é imprescindível aplicar essas modernas orientações dentro dos princípios da educação, visto a gravidade do problema exigir medidas urgentes não podendo esperar que cada individuo se liberte por méritos próprios da ignorância. Isso poderia se dar através de instruções fundamentadas no cuidado, na responsabilidade, no respeito pelo outro, a solidariedade, a alteridade, reconhecimento de direitos e deveres de todos os cidadãos, no respeito às diferenças incluindo a natureza como parte integrante do bem humano.
Referências
JONAS, Hans,. O principio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica/ Hans Jonas; tradução do original alemão Marijane Lisboa, Luis Barros Montez. – Rio de Janeiro: contraponto: Ed. PUC – rio, 2006.
FONSECA; Flaviano Oliveira. Hans Jonas: (bio)ética e critica a tecnologia/ Flaviano Oliveira Fonseca. – Recife: Ed. Universidade da UFPE, 2007.

Meio Ambiente


Natureza, minha irmã!
Debulha beleza
Tanta nobreza
Esnoba realeza

O homem
Tão inconsciente
Às vezes, até inocente
Destrói sem piedade
Matas, rios, fauna e flora
Deixando tudo na saudade

E agora,
O que será do futuro?

Um mundo vazio e escuro
Sem verde e sem ar puro
Completamente inseguro
Feito de pedra e de muro

Das águas só o murmúrio
Dos rios só o lamento
E o homem tão desatento
Deixa tudo ao relento

Esqueça tanta bobagem
E trace sua meta
Põe a mão na consciência
E comece a cuidar do Planeta!

Vamos cuidar do Planeta!